24/06/2008
Previsão de safra recorde de milho gera misto de euforia e apreensão
Fortes altas nas cotações do grão, impulsionadas pela corrida dos EUA por etanol, geram animação entre produtores, mas são garantia de impactos sobre pequenos que dependem do milho para abastecer seus animais
Por Mauricio Monteiro Filho
Muito menos badalado do que a soja, o milho começa a pressionar o mercado brasileiro de commodities por mais destaque. Segundo projeção do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ainda nesta safra, que caminha para atingir recordes no segmento de grãos, é possível que o milho supere a soja em quantidade produzida.
Diversas variáveis contribuem para esse boom, que vai reposicionando o Brasil no cenário internacional. Enquanto, há poucos anos, o país atuava apenas como coadjuvante no cultivo de milho, atualmente já desponta como o maior candidato a suprir a demanda global crescente pelo grão.
O fator de maior peso entre os que estimulam a alta nas cotações de milho, o que vem animando os produtores nacionais a ocupar áreas de soja com o grão, é o programa norte-americano de etanol. Lá, a matéria-prima usada para gerar o agrocombustível é justamente o milho. Com isso, o grão produzido em terras norte-americanas, que antes se destinava em grande parte à exportação - os EUA ainda figuram como maiores exportadores mundiais do produto -tem sua participação reduzida no mercado internacional.
Isso abre perspectiva para que os maiores produtores atrás dos EUA, Argentina e Brasil passem a preencher o vazio deixado pelos norte-americanos. E nessa disputa, apesar de ser um concorrente muito recente - há apenas duas safras o país tem excedente do grão - o Brasil tem tudo para levar a melhor. Isso porque, ao passo que o país ainda tem capacidade de expansão, as terras do vizinho sul-americano estão saturadas.
Outro elemento que esquenta esse quadro é a mudança de papel da China. Antes exportador, o país vem reduzindo drasticamente seus estoques e deve, em breve, passar a importar o grão.
"O milho, o petróleo e a China são os grandes vilões da crise dos alimentos", atesta Marco Antonio de Carvalho, pesquisador da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No entender de Garcia, essa associação se articula em torno do projeto dos EUA de etanol. Com a alta do petróleo, cada vez mais se torna urgente buscar uma alternativa energética. Além disso, a elevação nos preços do barril influi diretamente no campo, na medida em que inflaciona os fretes e os fertilizantes, derivados de petróleo. Isso somado à saída da China do posto de fornecedora e seus altíssimos índices de consumo, a pressão sobre o grão resultou em fortes altas.
Na visão de João Carlos Garcia, da divisão da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) especializada em milho e sorgo, "não faltou milho no mercado, mas os estoques estão muito baixos. Isso gera uma situação de incerteza, o que é maravilha para especulação", analisa. ""Não existe escassez, nem crise de abastecimento: é puro desequilíbrio entre oferta e demanda", emenda Carvalho.
Enquanto a alta do milho se sustentar, a euforia dos produtores mais capitalizados pode ser a outra face da angústia dos pequenos produtores, que não cultivam milho em suas propriedades, mas dele dependem para alimentar seus animais. Isso já se expressa na alta dos preços de aves e suínos.
Para tentar evitar esse impacto sobre os agricultores menores, a Conab tem tentado interferir no mercado através de leilões. E no mês passado anunciou o envio de mais de 77 milhões de toneladas para unidades em todo o país, volume que se destinará justamente a esses pequenos produtores por preços abaixo do mercado. A região mais beneficiada pela iniciativa da companhia será a região Nordeste, que apresenta a maior carência pelo grão.
Ainda assim, o próprio técnico da Conab é cético quanto ao efeito dessas medidas para mitigar os impactos da alta entre os pequenos. "Eles vão sentir muito. E têm que tomar cuidado para não serem expurgados do mercado", avalia Carvalho.