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20/04/2007 - 18:05 “Eu posso ser o que você é sem deixar de ser o que eu sou”O cacique Enio de Oliveira Metelo explica como é a vida em Marçal de Souza, primeira aldeia urbana na cidade, localizada em Campo Grande, capital do Mato Grosso do Sul. O objetivo principal do Conselho de Caciques, do qual faz parte, é zelar pelos modos, costumes, língua, danças, alimentação e outras tradições indígenas Texto e fotos de Priscila D. de Carvalho, especial para a Repórter Brasil* Enio é de Cachoeirinha, a 198 km de Campo Grande. Recebeu a indicação dos anciãos para se tornar cacique. A posição é vitalícia. Uma vez escolhido, não pode haver recusa. "Cacique é delegado, padre, resolve tudo. Às vezes, casal chega chorando. Cacique conversa, resolve", explica. O Conselho de Caciques é responsável por organizar algumas atividades para a comunidade. Houve confraternização no final do ano passado no pátio da escola pública construída junto ao loteamento. O amigo secreto foi sugestão da esposa de Enio para que as pessoas se encontrassem, já que a comunidade cresceu e "nem todo mundo se conhece". Na hora de descobrir quem eram os donos dos presentes, a confusão por causa dos nomes repetidos foi solucionada pelo infalível método do parentesco, marca mais característica das comunidades indígenas, seja na cidade ou no campo. È o Mario "filho de fulana" ou o "marido de ciclana"?, perguntavam as dezenas de participantes, animados. Deitado na rede, ao lado do aparelho de telefone, dos óculos, da carteira e de uma cópia da proposta do Estatuto dos Povos Indígenas, Enio conta sobre sua vida e seu trabalho como cacique. Como nasceu a aldeia urbana Marçal de Souza? Por que o senhor veio morar em Campo Grande? Aqui a oferta é maior, mas falta qualificar mão-de-obra. Tem muitos que trabalham na changa, em trabalhos não especializados como pedreiro, jardineiro, vigilante. A maioria das mulheres são empregadas domésticas ou vendem na feira. Mesmo para quem termina o ensino médico, ter trabalho é difícil. Nós indígenas nunca conseguimos trabalhos nos grandes supermercados, no shopping. E o senhor sente falta da aldeia? O senhor acha que vive melhor aqui? Quando chega aqui, o mais difícil é se instalar. Não tem casa, não tem banheiro, vai morar com outros. Eu e meu filho, moleque, dormimos no chão por muito tempo. E o senhor não teve vontade de voltar? E vocês mantêm contato com a aldeia? E tem mais gente chegando? Por que aqui tem o Conselho dos Caciques e tem também uma Associação de Moradores? Tivemos cinco conquistas este ano: um representante da Marçal de Souza foi para a Copa do Mundo, entrar com a bandeira. Tem uma enfermeira fazendo atendimento pela Funasa. Não tem desnutrição. Tem uma pessoa daqui em Porto Príncipe, no Haiti, no Exército. Ah, e tem mais uma. Este ano conseguimos um laudo pericial para Funai, para benefícios, INSS. Não tem briga, aqui é bom de viver. Tem a comunidade unida.
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03/09/2010
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