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14/11/2007 - 18:52 Agroecologia faz de assentamento modelo de sustentabilidadeLocalizado no município de Serra Azul (SP), Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) do assentamento Sepé Tiarajú é exemplo de produção agroecológica em meio à maior concentração de cana-de-açúcar do Brasil Texto e Fotos por Mauricio Monteiro Filho No meio da paisagem monótona do epicentro canavieiro do Brasil - a região de Ribeirão Preto, Nordeste do estado de São Paulo -, o assentamento Sepé Tiarajú, localizado no município de Serra Azul (SP), lembra um oásis de diversidade. Cravado entre lavouras de cana-de-açúcar, o terreno, que é o primeiro Projeto de Desenvolvimento Sustentável (PDS) paulista, está se tornando um modelo viável de produção alternativa à monocultura e um exemplo de reforma agrária bem-sucedida. Isso se tornou possível graças à opção do PDS pelo uso dos sistemas agroflorestais (SAFs).
Os SAFs são formas de cultivo que associam árvores com espécies frutíferas e lavouras anuais, com ou sem a presença de animais. Na prática, permitem um ganho de diversidade em relação à monocultura, uma vez que mesmo lotes menores passam a gerar vários tipos de produtos e se tornam fontes de renda sustentáveis para pequenos e médios lavradores. Outra vantagem é que os SAFs não exigem o uso de insumos químicos e nem desmatamento, já que podem aproveitar a cobertura vegetal já existente.
Início da "bagunça" Essa "bagunça" dos SAFs começou no Assentamento Sepé em 2004, quando o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) adquiriu 797 hectares de uma propriedade da usina Nova União, transformando o acampamento em assentamento, depois de mais de quatro anos de luta. Desde o início, a equipe do Incra, em parceria com a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa) Meio Ambiente, incentivou a produção sustentável. Foi a melhor saída para produzir naquela área de solo degradado, que formava mais um dos retalhos de cana-de-açúcar que compõem o cenário da região. "No meio do meu lote ficava a estrada por onde passavam os caminhões carregados de cana", relata Agnaldo.
Vizinha de Agnaldo e Elias no PDS, Maria Madalena Concheta acabou de plantar 300 novas mudas de árvores frutíferas para iniciar seu próprio SAF. Moradora do assentamento há 3 anos, ela explica a opção pela agrofloresta: "A gente viu a roça dos vizinhos dando certo", diverte-se ela, referindo-se ao lote de Agnaldo. Amante do verde, Madalena conta que, mesmo na época em que morava na cidade, buscava cultivar pés de frutas, ainda que num pequeno terreno de 250 metros quadrados. "Tinha até um de pêra, que é difícil de dar. Eu botava água pra gelar e despejava tudo na raiz da árvore pra ela crescer", conta.
E ela exprime o que os próprios técnicos reconhecem sobre SAFs. "Quando eu era criança, esse manejo todo, que eu achava muito ruim pra capinar, já era agrofloresta. Só que não tinha esse nome". E completa: "Foi meu pai que me ensinou que numa pequena terra a gente pode colher muita variedade". Parcerias As práticas agroecológicas de Agnaldo, Elias e Madalena já contagiaram a maioria das oitenta famílias assentadas. Quase todas elas já estão plantando mudas para iniciar SAFs em seus lotes.
Para Agnaldo, o compromisso será facilmente cumprido. "Eu acredito que podemos chegar a 70%. A agrofloresta permite que a mata seja produtiva", especula, otimista. Outra parceria foi criada entre o Sepé e os promotores do MPE de São Paulo em Cravinhos. Através dela, 30 mil mudas serão doadas às famílias até dezembro de 2008. Clarissa Chufalo, assistente de desenvolvimento agrícola do Incra, avalia que a alta consciência ecológica dos assentados e o sucesso do PDS contribuíram para que eles fossem vistos com outros olhos. "Já houve muita resistência à presença deles, mas isso está mudando", afirma. Clarissa conta que até os internos do presídio de Serra Azul, vizinho ao assentamento, tinham preconceito com os lavradores. "Mas hoje eles exigem que a comida servida na cadeia venha do PDS", afirma. Matérias relacionadas: Plano inaugura primeira política pública federal para SAFs SAFs proliferam na Amazônia e mobilizam agricultura familiar |
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