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05/05/2008 - 18:32 Represa de Sobradinho: um reservatório estratégico e desconhecidoNão fosse a obra, seria muito difícil equacionar os problemas de geração de energia elétrica no Nordeste. Fundamental também para o projeto de transposição, reservatório vem passando por situações volumétricas críticas. Por João Suassuna* O Rio São Francisco nasce na Serra da Canastra em Minas Gerais, estado responsável pela formação de cerca de 70% de suas águas. Corre em uma bacia hidrográfica com área aproximada de 640 mil km² e possui vazão média de cerca de 2,85 mil m³/s. O rio tem cerca de 2,8 mil km de extensão - entre o seu nascedouro e a sua foz, no pontal do Peba (AL) - e sua bacia é subdividida em Alto São Francisco (da Serra da Canastra a Pirapora), Médio (de Pirapora a Remanso), Sub-médio (de Remanso a Paulo Afonso) e Baixo (de Paulo Afonso ao Oceano Atlântico). Ela é caracterizada por períodos de abundância de chuvas entremeados por períodos de secas sucessivas e se estima uma população residente de cerca de 14 milhões de pessoas. O Alto São Francisco é o principal responsável pela formação das enchentes no rio. Este fato é explicado pelas características edáficas e pluviométricas dessa região (solos sedimentares e regularidade nas precipitações pluviométricas), características estas contrastadas com a vasta área de clima semi-árido no restante da bacia - principalmente em boa parte do Médio e em todo Sub-médio - na qual a geologia é cristalina e o clima é semi-árido, ou seja, chove pouco e as chuvas são mal distribuídas no tempo e no espaço. O período chuvoso do Alto São Francisco ocorre entre os meses de novembro e abril, intervalo este que não costuma coincidir com o período das águas das outras regiões, principalmente as de clima semi-árido, onde estão localizadas as usinas da Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf). Esse fato resultava, até há pouco tempo, em deficiências volumétricas significativas, quando da ocorrência de secas prolongadas com prejuízo para o setor elétrico. Em decorrência disso, a Chesf foi obrigada a construir a Represa de Sobradinho, no Médio São Francisco, com capacidade de 34 bilhões de m³, (equivalente a cerca de 14 vezes o volume da Baía da Guanabara, no Rio de Janeiro), com o objetivo de acumular as águas provenientes de sua região alta, para, em seguida, assegurar, em patamares satisfatórios, o funcionamento do sistema gerador de energia sob sua responsabilidade. Não fosse a construção dessa represa, seria muito difícil o equacionamento dos problemas de geração de energia no Nordeste. Para se ter uma idéia, em outubro de 1955 - ano considerado seco - o São Francisco registrou a sua menor vazão de 595 m³/s, em Juazeiro/Petrolina, tendo, por outro lado, registrado enchentes monumentais, como aquela ocorrida em 1979, na qual atingiu uma vazão de cerca de 18 mil m³/s, causando o vertimento de Sobradinho, fato que assustou boa parte da população local. Ao se analisar o regime hidrológico da represa de Sobradinho desde a época de sua inauguração, principalmente no tocante à sua acumulação volumétrica (volumes máximos e mínimos anuais), pode-se constatar que, no período compreendido entre 1978 e 1986, os anos foram hidrologicamente satisfatórios em termos de precipitações, tendo havido acumulações significativas e, em vários deles, a represa veio a sangrar. Igual característica foi observada nos períodos subseqüentes de 1990 a 1994; de 1997 a 1998 e de 2004 a 2007. Períodos críticos de secas também são recorrentes em Sobradinho. Eles ocorreram de forma marcante entre 1987 e 1989, entre 1995 e 1996 e entre 1999 e 2003. Nesses casos, a represa acumulou apenas metade de sua capacidade útil. Em 2001, atingiu apenas 5% dessa capacidade. Este foi considerado o ano mais seco da história do São Francisco, tendo resultado nos racionamentos e na pior crise energética vivenciada até então. Tudo indica que o ano de 2008, dadas as características climáticas que estão em curso (choveu abaixo da média na região), também será seco. Ao se analisar globalmente o comportamento volumétrico de Sobradinho, considerando principalmente os períodos favoráveis e os desfavoráveis da pluviometria, chega-se à conclusão de que a represa enche em 40% dos casos, ou seja, em 10 anos ela atinge a cota de sangramento em apenas 4. No momento atual, o que preocupa é que no mês de janeiro a Represa de Sobradinho estava com apenas 15% de sua capacidade útil, motivada pelo uso volumétrico na geração e distribuição de energia do sistema Chesf para outras regiões do país. A partir do mês de fevereiro, período no qual a represa deveria estar com a sua afluência volumétrica em estado crescente (volumes que chegam na represa), o que se observou foi um quadro inverso do esperado: a sua afluência mostrou-se em estado decrescente, o que poderia agravar ainda mais o quadro crítico apresentado. No dia 26 de janeiro, por exemplo, um cidadão em Propriá (SE) havia conseguido atravessar o Rio São Francisco numa moto. A piscicultura é outra atividade que tem sido seriamente afetada. A retenção de sedimentos no interior das represas geradoras de energia tem interferido sobremaneira na turbidez de suas águas, confundindo a fisiologia dos peixes e abortando suas desovas. A redução da temperatura das águas é outro fator preocupante, principalmente nos locais mais profundos das represas, o que tem trazido sérios transtornos na reprodução e no desenvolvimento de algumas espécies. Também a falta de escadas ou de canais, que possibilitem a subida do peixe - do rio para o interior das represas - na época da piracema tem causado o desaparecimento do pescado no São Francisco. O caso do surubim é um exemplo disso. A geração de energia elétrica pelo sistema Chesf e a sua transmissão para outras localidades do país (o sistema elétrico brasileiro é interligado) têm reduzido, com certa rapidez, o nível dos reservatórios das hidrelétricas. Esse problema tem interferido, de forma preocupante, principalmente na irrigação que é praticada próxima às represas. Uma visita do presidente Lula à região de Porto da Folha (SE), no Sub-médio São Francisco, seria muito oportuna, com o propósito de conhecer de perto a situação de penúria hídrica em que se encontra o rio, verdadeiro filete de água serpenteando num leito assoreado.
Comentários: LUDMILA RIBEIRO - 07/05/2008 - 20h08
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