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12/05/2008 - 19:09 Júri popular ratificou séculos de latifúndio e escravidão, diz juristaAbsolvição do acusado de ser o mandante do assassinato de Dorothy Stang reflete a prevalência dos interesses dos senhores rurais, analisa Fábio Konder Comparato. Para Dalmo Dallari, decisão é contrária às provas dos autos. Por Maurício Hashizume A absolvição do fazendeiro Vitalmiro Bastos de Moura, o "Bida", da acusação de ter sido o mandante do assassinato da missionária Dorothy Stang é um reflexo dos "séculos de latifúndio e de escravidão". Essa é a análise que o jurista Fábio Konder Comparato faz da decisão do júri popular pronunciada na terça-feira passada (6) que livrou Bida da pena de 30 anos de prisão, determinada no primeiro julgamento ocorrido em meio de 2007. Árdua defensora de Projetos de Desenvolvimento Sustentável (PDSs) para o manejo florestal e adoção de sistemas agroecológicos na Amazônia, a norte-americana foi alvejada por tiros em fevereiro de 2005, no município de Anapu (PA).Fábio Konder Comparato declarou à Repórter Brasil que os jurados que absolveram o acusado (por cinco votos a dois) reafirmaram a lógica na qual, ao fim e ao cabo, "prevalece o interesse dos senhores rurais". "Não passamos impunemente por mais de quatro séculos de latifúndio e quase isso de escravidão", declarou o professor titular aposentado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP), buscando escarafunchar as motivações por trás da posição referendada pelo júri popular. "A realidade dura de ser admitida por nós é que o ´povo´ não gosta daqueles que querem mudar a ordem das coisas", adiciona o jurista, justificando o sentimento de "repulsa" de parte considerável da população brasileira a organizações como o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Na opinião de Dalmo Dallari, também jurista e professor aposentado da Faculdade de Direito da USP, a absolvição de Bida é um caso de "decisão contrária às provas dos autos". Ele salienta que as mudanças de depoimento do intermediário Amair Feijoli da Cunha (Tato) e dos pistoleiros Rayfran das Neves Sales (Fogoió) e Clodoaldo Carlos Batista (Eduardo) - sem que haja provas que as sustentem - não anulam os primeiros testemunhos. A decisão "evidencia mais uma vez a impunidade garantida aos mandantes de crimes contra trabalhadores rurais e defensores de direitos humanos no Pará", adicionam, em nota pública, as entidades que integram o Comitê Brasileiro de Defensoras e Defensores de Direitos Humanos. As organizações completam: "O resultado do Tribunal do Júri demonstra também a importância de que casos emblemáticos de violações de direitos humanos sejam federalizados, isto é, que tanto a apuração como o processamento do caso sejam realizados pela Polícia Federal e Justiça Federal, respectivamente, de modo a impedir que autoridades judiciárias e juri fiquem suscetíveis às pressões dos grupos poderosos locais. Vale lembrar que o pedido de federalização do caso Dorothy Stang foi negado pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ)". Recurso A CPT e o MP trabalham com a possibilidade de que o recurso seja julgado até o fim deste ano. "Não há prazo e a pressão é um fator importante", avalia o advogado da entidade. "O trâmite pode ser concluído em 120 dias". A possibilidade de apresentação de uma ação junto à Comissão de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA) - por omissão dos governos com relação à violência rural no Pará e na Amazônia - está sendo estudada, mas depende do andamento do recurso apresentado pelo Ministério Público, adiciona José Batista, da CPT. Uma das novidades do caso é a investigação da filmagem do depoimento de Amair Feijoli da Cunha, o Tato, que foi apresentada durante o julgamento em que Bida foi absolvido. O MP quer saber quem encomendou e pagou a produtora que gravou em vídeo o testemunho do intermediário. |
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