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27/05/2008 - 19:50 Povos do Xingu se unem para mostrar problemas de Belo MonteObra prioritária do PAC para geração de energia afetará cerca de 3,2 mil famílias, de acordo com cálculo de organizações locais. Haverá conflito caso processo em curso não seja paralisado, anunciam povos indígenas do Xingu Por Maurício Hashizume* Os cinco dias do Encontro Xingu Vivo Para Sempre, ocorrido em Altamira (PA) na semana passada, não se resumiram ao incidente em que o engenheiro da Eletrobrás, Paulo Fernando Rezende, acabou ferido por guerreiros do povo Kayapó. Mais de três mil pessoas - entre representantes de organizações indígenas (cerca de 800 de mais de 20 etnias) e de movimentos sociais, ribeirinhos, pequenos agricultores, moradores de áreas urbanas, pesquisadores e ambientalistas - se reuniram para debater questões relacionadas à usina hidrelétrica de Belo Monte.
Os impactos previstos dão uma idéia dos diversos aspectos - muito além do caráter "selvagem" dos indígenas - que podem ter influenciado o ataque direto dos Kayapó ao representante do governo, fato esse classificado pelos próprios organizadores do evento de "lamentável, porém isolado e acidental". A Diretoria Executiva da Eletrobrás manifestou, em comunicado, "indignação" diante do ocorrido e declarou que "tomará todas as providências necessárias para que os responsáveis pela agressão sejam punidos". "É uma pena que o Brasil só se reporte à Amazônia em cenas tristes", avalia o procurador Felício Pontes Júnior, do Ministério Público Federal (MPF) do Pará, que acompanha a questão indígena há anos na região e esteve presente no encontro. Á noite, no mesmo dia em que o engenheiro foi ferido, Felício teve uma longa conversa com os Kayapó. "Foi a primeira vez em dez anos que alguém do governo federal veio conversar oficialmente sobre o projeto da usina de Belo Monte. Eles esperaram aquele evento como se fosse um momento de diálogo", descreve o procurador da República.
Durante a sua apresentação no último dia 20, Paulo Fernando desqualificou as colocações feitas anteriormente pelo professor da Faculdade de Engenharia Mecânica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Oswaldo Sevá, que questionou a viabilidade econômica do empreendimento. Autor de um livro sobre o tema, o pesquisador sublinhou a drástica diminuição do volume de água do Xingu durante o verão e previu que a potência máxima (11,1 mil MW) se dará apenas em três meses do ano. A média, prevê, deverá ser bem menor que a anunciada.
A hipótese levantada pelo procurador não é descartada pelos indígenas, como eles próprios deixam claro no documento que entregaram ao juiz federal Antonio Carlos Campelo, no último dia 21. "Caso os senhores não consigam parar essa obra, nós, povos indígenas da Bacia do Xingu entraremos até os canteiros de obras desses empreendimentos e vamos acabar de nosso modo", colocam os delegados indígenas do Rio Xingu que participaram do encontro em Altamira. "Aconteça o que acontecer, nós, povos indígenas morreremos defendendo as nossas vidas, nossos patrimônios e nossas terras. Dizemos a vocês ainda que haverá conflito entre o empreendedor e os povos indígenas, caso os senhores não parem com essas obras". Imbróglio Desde 2001, os procuradores federais têm protocolado ações contra a obra. A primeira delas pedia a paralisação do processo porque o Congresso Nacional não havia consultado representantes dos povos indígenas atingidos pela usina, como exige o Parágrafo 3º do Art. 231 da Constituição Federal. Entre 2001 a 2005, esta foi a principal razão que fez com que o processo de elaboração de estudos de impacto ambiental (EIA) para a construção da usina fosse brecado, lembra Felício. Em 2005, porém, o deputado federal Fernando Ferro (PT-PE) apresentou o Projeto de Decreto Legislativo (PDC) 1.785/05 que tramitou em apenas cerca de 15 dias na Câmara e no Senado, dando autorização para que o Poder Executivo pudesse concluir o Aproveitamento Hidrelétrico (AHE) de Belo Monte. "Foi uma das matérias que tramitou mais rapidamente na história do Legislativo brasileiro", comenta o procurador.
Além da Constituição Federal, a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas reconhecem direitos das populações tradicionais e determinam a obrigatoriedade de consulta dos povos indígenas acerca de qualquer medida que possa afetá-los. Mesmo assim, o Estudo de Inventário Hidrelétrico do Rio Xingu está prestes a ser aprovado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) sem a devida consulta aos povos indígenas.
Futuro
Segundo Ana Paula, a forma como as populações locais estão sendo tratadas - sob ameaça, sem que se levem em conta as condições para a sobrevivência e reprodução dos povos - já é "uma violência". "Se a sociedade não for firme, não será nem ouvida. Aceitamos o fato de que a questão da energia é um gargalo, mas por que a sociedade não pode ser convidada a participar das propostas? Minimizando a participação, aumenta-se a tendência ao conflito". Para ela, portanto, o recado de que a questão precisa ser discutida de forma mais aberta, transmitido pelas organizações que participaram do evento em Altamira (PA), foi dado. "Hoje, a bola está no campo do governo". Recursos
Diferentemente das polêmicas das usinas do Rio Madeira, em Rondônia, e do projeto de transposição das águas do Rio São Francisco, no Nordeste, o procurador federal vê uma sociedade civil mais combativa e resistente na região, haja vista a quantidade de casos de assassinatos de defensores de direitos humanos que ocorreram na região ao longo dos últimos anos. "Altamira não é para amadores. O debate político precisa se abrir mais, não apenas no seu conteúdo, mas também na forma", recomenda. "O governo não quis ver o que é óbvio. E pode acontecer algo mais grave".
Comentários: ANA SANTIAGO - 14/09/2009 - 13h45
WARLLA - 14/04/2009 - 17h12
WARLLA - 14/04/2009 - 17h08
PAULO PEREIRA - 17/06/2008 - 14h27
TANIR LOPES - 28/05/2008 - 11h09
JOSÉ MARIA PEREIRA - 28/05/2008 - 09h28
DARIO L P AZEVEDO - 28/05/2008 - 08h55
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