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31/07/2008 Atingidos pelas obras de hidrelétrica enfrentam incertezasRepórter Brasil foi à divisa dos estados do Tocantins e Maranhão para desvendar os impactos da construção da Usina Hidrelétrica de Estreito. Na abertura da série, uma radiografia do impasse que paira sobre a barragem Texto e fotos: Beatriz Camargo e Maurício Hashizume
A Usina Hidrelétrica (UHE) de Estreito, que leva o nome do município maranhense que concentra a maior parte das obras, gera incerteza em relação ao futuro do homem e da natureza na região, a despeito da aura do "progresso". Dúvidas elementares ainda permanecem em aberto. Segundo o Consórcio Estreito Energia (Ceste), a obra deve deslocar forçadamente cerca de duas mil famílias. Pelas contas do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), que fez um cadastro paralelo na região, cinco mil famílias serão afetadas em 12 municípios - dois no Maranhão (Estreito e Carolina), e dez no Tocantins (Aguiarnópolis, Babaçulândia, Barra do Ouro, Darcinópolis, Goiatins, Filadélfia, Itapiratins, Palmeirante, Palmeiras do Tocantins e Tupiratins). Estreito terá capacidade para gerar 1.087 MW e será impulsionada por R$ 3,1 bilhões do orçamento do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) federal até 2010. Depois dessa data, ainda serão canalizados mais R$ 134 milhões do governo ao empreendimento. A maior parte dos financiamento tem como fonte o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que aprovou a destinação de R$ 2,6 bilhões à obra .
O Ceste, responsável pela construção e administração da obra, é uma confraria de gigantes: Suez Energy International, Vale, Alcoa e Camargo Corrêa Energia. O empreendimento também tem o apoio dos governos estaduais. Em maio, foi criado o Fórum Permanente do Corredor Centro-Norte, que reúne Maranhão, Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Pará, Piauí e Tocantins. O objetivo maior do fórum é fortalecer a rede de escoamento de produtos, incentivando a construção de ferrovias e hidrovias no estados-membros. Entre as prioridades do grupo, estão a usina de Estreito e a Ferrovia Norte-Sul. A Alcoa, outra integrante do consórcio, é uma das líderes mundiais na produção de alumínio. O setor, junto com a siderurgia, está entre os que mais consomem energia. Para se ter uma idéia, a média global de consumo na produção do alumínio é de aproximadamente 15,4 MW/hora por tonelada. A mesma energia poderia ser utilizada para suprir 100 famílias por 30 dias. O especialista em energia Célio Bermann, professor no Instituto de Energia e Eletrotécnica da Universidade de São Paulo (IEE/USP), aponta que 30% da energia produzida no Brasil abastece seis setores da economia: cimento, aço, alumínio, ferro-ligas, petroquímica e papel-celulose. A população ribeirinha, os indígenas e os movimentos sociais, por seu turno, buscam cavar espaço para manifestar as suas preocupações com relação aos grandes projetos de infra-estrutura, seguem em ritmo acelerado. Estreito é a sétima usina hidrlétrica no Rio Tocantins, para o qual estão previstas pelo menos outras três hidrelétricas. A barragem de Marabá, em estudo de viabilidade, prevê o deslocamento de cerca de 40 mil pessoas - entre elas o povo indígena Gavião. A de Serra Quebrada, ainda sem estudos de impacto, já conta com a inundação de uma parte da Terra Indígena (TI) Apinajé para o reservatório. "Essa afirmação de que empreendimentos de recursos hídricos sempre trazem progresso não é verdadeira. Pode ser que a preservação desse recurso seja mais importante", lembrou a sub-procuradora da República Deborah Duprat, na audiência pública que discutiu a instalação da usina de Estreito no último mês de maio, no Senado Federal. Os Ministérios Públicos Federal e Estadual do Maranhão e Tocantins se opõem à maneira como o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) concedeu as licenças (sem cumprir todas as exigências previstas) e contestam o processo por meio de ações na Justiça. Até agora nenhuma delas foi julgada definitivamente. Para os índios ouvidos pela reportagem, a barragem traz dois efeitos principais. A mudança das vazantes e das cheias do rio, que influi diretamente no modo de vida local, é um deles. Tanto a oferta e a variedade de peixes como a roça nas margens, por exemplo, serão inevitavelmente alteradas e atingirão também os ribeirinhos. Além do fator ambiental, os deslocamentos populacionais causados pela obra também tiram o sono dos locais. As inundações "empurram" a população não-índia de ribeirinhos, que passa então a estabelecer povoados mais próximos de TIs. Essa aproximação, temem os indígenas, pode intensificar ainda mais a disputa por terras e acirrar os conflitos na região. Além dos impactos diretos, há aproveitadores iludindo a população com promessas de trabalho e denúncias de ameaças por parte de funcionários de terceirizadas que negociam com os atingidos. Também há indícios de que integrantes dos comitês criados para acertar as compensações estejam comprando casas que serão inundadas para depois revenderem essas propriedades ao consórcio, por um preço muito mais alto. O Ceste, políticos locais e governantes - em nível estadual e federal - argumentam que a barragem proporcionará o progresso e desenvolvimento da região e que até 22 mil empregos poderão ser criados na fase de construção. Acenam ainda com altos valores em "royalties" para os cofres públicos. A série de reportagens busca elucidar os conflitos na esfera jurídica da construção da barragem (em "Impasse"); o jogo - e a prevalência - de interesses em nível local (em "Pressão"); os impactos sociais e ambientais do empreendimento (em "Vidas Inundadas", dividida em duas partes: "Indígenas" e "Ribeirinhos"); e o que se pode esperar daqui para frente (em "Horizontes").
Parte I - Impasse A sentença em primeira instância havia concordado com os argumentos da ação civil pública movida pelo Ministério Público Federal (MPF), de que o Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA/RIMA) deveria ser expandido para considerar uma "área de influência indireta" maior do lago, incluindo as populações indígenas e o estudo integrado da bacia dos Araguaia-Tocantins. O juiz Lucas Rosendo de Araújo também acatou o pedido de "medida urgente", o que provocou a interrupção das obras. A Advocacia Geral da União (AGU), o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e Recursos Naturais Renováveis (Ibama) e a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), réus do processo, recorreram, no entanto, da decisão e o presidente do Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região, em Brasília (DF), Jirair Aram Meguerian, revogou a medida urgente - o que permitiu a retomadas das obras. O mérito da ação ainda será analisado pelo TRF e o MPF pode recorrer da decisão. Até a conclusão desta reportagem, o processo ainda não havia sido distribuído para o desembargardor responsável pelo caso. Já em 2006, o Movimento Humanos Direitos (MHuD) - que reúne diversos artistas como Letícia Sabatella, Marcos Winter, Otto, Camila Pitanga, Osmar Prado e Dira Paes - fez uma campanha contra a construção da Usina de Estreito.
Na UHE Estreito, o Ceste propôs a instalação de 12 comitês de co-gestão municipais, presididos pelos prefeitos. A instalação dos comitês é uma das condicionantes da Licença de Instalação (LI) concedida pelo Ibama. A avaliação dos movimentos sociais e do Ministério Público Estadual e Federal, no entanto, é de que os comitês não cumprem a sua função de negociação democrática. O procurador Pedro Henrique Castelo Branco, do MPF de Imperatriz (MA), argumenta que, em muitos municípios, o funcionamento dos comitês de co-gestão é irregular. "O prefeito de Estreito (MA), presidente do comitê, assinou a ata da reunião como representante do consórcio. Isso é um absurdo. Ele é representante do povo que o elegeu, e não do consórcio". Em muitos municípios, como Estreito (MA) e Darcinópolis (TO), os comitês foram formados sem divulgação. Isso, segundo o procurador, compromete a legitimidade dessas instâncias. "Ele não pode ser considerado legítimo porque não representa a todos. Não tem a imparcialidade necessária ao seu funcionamento", conclui. "Entendemos que a instalação do foro é necessária e que ele deve ser implementado pelo Ibama. Fizemos uma recomendação, mas não podemos obrigar o órgão a cumpri-la". Agemiro Pereira dos Santos, do Projeto de Assentamento (PA) Formosa, em Darcinópolis (TO), conta que o comitê de co-gestão no município foi formado sem eleição e sem a presença de Ministério Público, ribeirinhos e comunidade indígena. De acordo com o coordenador do MAB no Tocantins, Cirineu da Rocha, a questão é financeira. "Se a empresa aceitar a criação do foro, vai aumentar os custos para ela, por isso ela não quer". A colônia de pescadores Z-35, que reúne cerca de 450 pescadores em Estreito (MA) e Carolina (MA), distribuiu um panfleto em que se declarava contra a interrupção das obras, chamada "carta de repúdio aos manifestantes do MAB e MST". O texto dizia que os pescadores da Z-35 eram favoráveis ao empreendimento e "testemunhas do apoio e incentivo que vem sendo dado pela barragem para todos os pescadores da região". "Graças a Usina de Estreito, nossa colônia de pescadores já conta com computadores e outros equipamentos que nos permitem conectar com a internet", completava o panfleto. O clube das mães Frei Gil, de Estreito (MA), também distribuiu panfleto com o mesmo teor, argumentando que a iniciativa trouxe emprego a seus filhos no município. No dia 14 de março, foi realizada uma reunião de negociação em Imperatriz (MA) entre manifestantes, Ibama e o MPF. O Ceste não compareceu. No dia 18 de março, na segunda reunião - também em Imperatriz, com os mesmos representantes e mais uma vez sem o consórcio -, a superintendência do Ibama do Maranhão manifestou intenção de apoiar a criação do Foro. A terceira reunião discutiria a composição e o funcionamento da instância de debates. Naquela ocasião, ficou determinado pelo Ibama que, se o Ceste não comparecesse, a licença (LI) do empreendimento seria cancelada. De acordo com coordenadores do MAB, a articulação do Ministério de Minas e Energia (MME) adiou a terceira reunião e a transferiu para Palmas (TO), capital do Tocantins. Os movimentos alegaram que não tinham dinheiro para o transporte, mas o MME garantiu que o consórcio pagaria a viagem dos envolvidos. Ibama e MME dizem ter enviado um fax à diretoria do Ceste, que esclareceu ter respondido, prontamente, que não arcaria com nenhuma despesa. Apesar da promessa, os custos foram assumidos pelos movimentos. Na reunião de Palmas, em 11 de abril, os representantes do governo federal disseram que houve um "mal entendido" e que o Ibama não poderia se responsabilizar pela criação e administração de um foro de negociações. Para os presentes, ficou claro que outros atores tinham tomado as rédeas do processo. O diretor-substituto de licenciamento do Ibama, Valter Muchagata, declarou que o escritório do Maranhão estava desautorizado a decidir sobre licenciamentos e que o tema deveria ser tratado em Brasília (DF). Valter declarou que os comitês de co-gestão seriam fiscalizados e que haveria uma reavaliação do funcionamento dos mesmos. O procurador do MPF-TO, Álvaro Manzano, considerou a decisão um retrocesso. "Legalmente eles poderiam ter feito isso. Mas, politicamente, a credibilidade ficou desgastada". Um grupo de parlamentares - Kátia Abreu (DEM-TO), João Ribeiro (PR-TO), Roseana Sarney (PMDB-MA), César Borges (PR-BA), entre outros - pediu o adiamento da audiência e conseguiu aprovar requerimentos para garantir a representação da coalizão favorável à obra. Os indígenas disseram mais uma vez que não foram incluídos nos comitês municipais. "Pessoas estão sendo expulsas sem participar", definiu Lourenço Milhomem, do povo Krikati, representando a Coordenação das Organizações e Articulações dos Povos Indígenas do Maranhão (Coapima). Na outra ponta, Ceste, prefeitos, presidentes de associação e políticos do estado ressaltaram os benefícios que a obra traz à região, citando o aumento das ofertas de emprego. Para quem visse a situação fora do contexto, os dois pólos não pareciam tratar do mesmo assunto. Grande parte dos presidentes das associações locais que tiveram voz na audiência - pescadores, barqueiros, barraqueiros (donos de barracas) e atingidos - faz parte dos comitês de co-gestão. Ou seja, são contrários à criação de outra instância de negociação, pois consideram que a parcela que ainda vê problemas com relação às conseqüências da usina é de "gente de fora".
"Temos que respeitar a vontade das entidades locais que já se manifestaram contra [a criação do foro]", justificou, durante a audiência, o diretor de saúde, seguro e meio ambiente do Ceste, Antonio Luiz Abreu Jorge. Mesmo sem consenso, o senador Paulo Paim (PT-RS), articulador da reunião ao lado de José Nery (PSol-PA), propôs que o foro fosse criado com a manutenção dos comitês - que permaneceriam atuantes, discutindo coisas mais específicas. À reportagem, a diretora de socioeconomia do Ceste, Norma Villela, reiterou posteriormente. "O empreendimento já conta com comitês de co-gestão nos municípios interferidos pelo empreendimento, onde é possibilitada a discussão de temas gerais e específicos a cada municipalidade". Para o consórcio, o comitê "interage a comunidade com o empreendimento" nas diversas fases da obra, "conferindo transparência ao processo como um todo". A diretora ressaltou que "as condições do remanejamento da população foram e vêm sendo apresentadas coletiva e individualmente às famílias interferidas pelo empreendimento, também de forma transparente". Ocupação No final de julho, foi realizada uma série de reuniões nas comunidades da zona rural do Maranhão e do Tocantins, para discutir uma proposta única perante as reuniões dos comitês. Nas próximas semanas, haverá uma série de reuniões nos centros urbanos. A intenção é apresentar o documento também para MP Estadual, para o MP Federal e para o Ibama. Representantes do MAB - que coordenou as reuniões locais junto com outros movimentos como a Comissão Pastoral da Terra (CPT) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) - relatam que a participação da população tem sido massiva. Alguns encontros reuniram mais de 150 pessoas. "Já indenizaram algumas famílias. E ´a ficha das pessoas está caindo´. Elas estão vendo que é pouco [e querem brigar por mais]", avalia. Cirineu afirma, contudo, que a idéia do foro não está descartada. "Se conseguirmos unificar a proposta em todos os comitês, a própria empresa poderá sugerir que, em vez de 12 reuniões iguais, seja feita uma só".Leia a proposta conjunta do movimentos sociais para os atingidos de Estreito Leia as outras partes do Especial - Estreito: Parte II- Pressão Parte III - Vidas inundadas - Indígenas Parte IV - Vidas inundadas - Ribeirinhos Parte V - Horizontes Mapa das UHEs Araguaia / Tocantins Azul Escuro = UHE em atividade/em construção Azul Claro = UHE projetada (Clique sobre os balões para obter mais informações) Exibir mapa ampliado
Comentários: é bom p/o desenvolvimento.Mas p/os seres vivos(homem,animais,plantas etc...)seráaaaaaa??????????????
EDMILSON - 17/01/2010 - 19h44
POLLYANNA ARAÚJO - 14/04/2009 - 15h13
ANTONIO BRITO SOUSA - 11/08/2008 - 08h07
HELEN LUIZA - 06/08/2008 - 16h27
JOSE ROBERTO FONTES CASTRO - 04/08/2008 - 20h49
DARIO L P AZEVEDO - 04/08/2008 - 15h49
CAROLINA - 04/08/2008 - 15h04
JOSUÉ MOURA - 04/08/2008 - 10h58
GUILHERMINA DIVINA DE AGUIAR SILVA - 01/08/2008 - 20h15
EDMUNDO RODRIGUES COSTA - 01/08/2008 - 08h53
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