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17/04/2009 - 13:13 Resposta à crise, emprego digno é debatido no Mato GrossoGovernos, órgãos internacionais, empresários, trabalhadores e entidades civis se reúnem para coordenar ações pelo trabalho decente em nível estadual. Enquanto patrões veem oportunidade, líderes de base continuam sob ameaças Por Maurício Hashizume* Cuiabá (MT) - O diálogo entre representantes de governos, organismos internacionais, empresários, trabalhadores e organizações civis no Mato Grosso tem possibilitado uma resposta à crise financeira e a problemas crônicos de violações de direitos humanos. Reunidos nesta semana (de 14 a 16 de abril) na capital estadual, diversos atores sociais participaram da Conferência Estadual pelo Trabalho Decente e deram mais um passo em busca de padrões mais dignos e qualificados de emprego, na tentativa de vencer o desgastado receituário da demissão, precarização e superexploração.Compilação feita pela Comissão Pastoral da Terra (CPT) coloca o Mato Grosso na segunda posição do ranking de estados com maior número de libertados do trabalho escravo entre 1995 a 2008. Foram 5.262 libertações (15,6% de um total de 33.477) em fazendas do estado; somente o Pará, com 11.053 libertações (32,8%), supera as sombrias estatísticas mato-grossenses. No tocante a denúncias de escravidão durante o mesmo período, o Mato Grosso também ocupa o segundo posto, com 7.633 (13,1%), novamente atrás apenas do Pará, com um total de 24.988, que equivale a espantosos 43,3%. Dados do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), por sua vez, mostram que aproximadamente 127 mil crianças entre 10 a 14 anos que viviam na Região Centro-Oeste - da qual faz parte do Mato Grosso - estavam trabalhando no ano de 2006.
"Mato Grosso possui situações inadmissíveis que precisam ser superadas", admite o secretário-Adjunto de Trabalho, Emprego, Cidadania e Assistência Social (Setecs), José Rodrigues Rocha Júnior. "Não se trata de uma tentativa de minimizar os problemas e colocar panos quentes", completa. Não por acaso, o combate ao trabalho escravo, a eliminação do trabalho infantil e a redução dos acidentes de trabalho foram escolhidos como prioridades nas discussões da conferência estadual. Chefe da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Mato Grosso (SRTE-MT) e um dos principais articuladores da conferência, Valdiney Arruda lembrou, na cerimônia de abertura do evento, na última terça-feira (14), de uma fiscalização em 2003. Na ocasião, o auditor fiscal de trabalho de carreira atuou na libertação de um pai de família em situação análoga à escravidão, que sofrera agressões físicas juntamente com o filho. Do pai, Valdiney ouviu uma frase que marcou a sua vida: "Doutor, nunca esqueça da gente".
Riscos e oportunidades O governador defendeu a punição exemplar dos infratores. "Fui acusado de um monte de coisas [o governador foi laureado com o prêmio ´Motosserra de Ouro´ pelo Greenpeace e foi chamado de "homem por trás do estupro da floresta", pelo diário inglês The Independent]. E entendi que o Estado não pode ser tolerante. Porque se o Estado aceita, os demais atores da sociedade se acomodam", declarou. Para Blairo, não é possível mais tolerar a postura daqueles que "acham que pode fazer o que quiser sem que ninguém veja" e cometem abusos nas regiões isoladas das fronteiras mato-grossenses com o Pará ou com o Amazonas, estados que integram a Região Norte. Os riscos de punição comercial também fizeram parte do discurso de Blairo Maggi. "Os grandes exportadores precisam assumir compromissos sociais", pregou. Segundo ele, o mercado internacional - formado por consumidores que têm personalidade, convicções e poder de decisão - "olha de forma diferente aqueles que estão dispostos a mudar". Os problemas no campo do trabalho podem se converter, de acordo com o governador, em verdadeiras barreiras na Organização Mundial do Comércio (OMC). "Quem não obedecer às regras ambientais e sociais, não será mais aceito", prognosticou.
Depois de mais de um ano de conversações, a realização da Conferência Estadual pelo Trabalho Decente foi classificada por Carlos Lupi como um momento exemplar no sentido de "combater os que violam direitos e os que não cumprem a lei" no estado que pode ser considerado como "um dos celeiros do país". Segundo Carlos Lupi, a importância do ato que referenda os postulados de trabalho decente propostos pela OIT no Mato Grosso tem uma dimensão bem maior do que se imagina. "Estamos dizendo, no auge da crise, que vamos vencê-la garantindo direitos". O otimismo também fez parte da fala de Mauro Mendes, da Federação das Indústrias do Estado do Mato Grosso (Fiemt), que representou o setor patronal na cerimônia de abertura. Para ele, a crise atual pode ser uma oportunidade para o surgimento de uma nova classe empresarial, que fará parte de uma ordem distinta "com base em princípios mais éticos e humanitários". "Mato Grosso precisa encarar esse desafio. Estamos dispostos a construir uma nova agenda", declarou. Nas palavras dele, a escravidão, que infelizmente ainda existe, "tem que [virar coisa do passado e] ser história para se contar nos filmes de Hollywood". "Isso não pode mais ocorrer nem aqui e nem em lugar nenhum. E o setor empresarial tem responsabilidade". Crise e trabalho decente
"A crise é uma ameaça ao trabalho decente. Aumenta a possibilidade de precarização e cresce o risco de exploração do trabalho infantil e do trabalho escravo", emendou a representante do organismo internacional ligado às Nações Unidas. Entretanto, Laís fez questão de reforçar que o alcance da crise depende da aplicação efetiva de políticas públicas. Ela listou algumas das recomendações que a OIT, como o incentivo a políticas de incentivo à produção e de investimento em setores intensivos de mão-de-obra, o aumento da proteção social (por meio de programas de transferência de renda como o Bolsa Família, a ampliação do pagamento de Seguro-Desemprego e o reajuste do salário-mínimo), o apoio aos chamados "empregos verdes" (mais sustentáveis do ponto de vista ambiental), o reforço de ações de prevenção e fiscalização (para evitar retrocessos) e o incentivo ao diálogo social (em fóruns tripartites envolvendo governo, empresários e trabalhadores, como forma de buscar soluções que interessam a todos). Laís Abramo frisou ainda que a consolidação da agenda do trabalho decente no Mato Grosso compõe ainda a abertura do calendário de comemorações dos 90 anos da OIT. Criada em 1919, no final da I Guerra Mundial, o organismo que coloca o trabalho no centro das ambições por um mundo com mais justiça social é 30 anos mais velho que a Organização das Nações Unidas (ONU). Ações e perseguições
Uma das principais conclusões verificáveis até o momento, segundo José Manuel, é a de que a formalização do trabalho aumentou (e por conseqüência, o déficit de trabalho decente diminuiu) em função da intensificação das ações de fiscalização do MTE. Os pesquisadores observaram que criminosos do trabalho escravo também estavam envolvidos em outros tipos de infrações. "Isso mostra que eles correm riscos e apostam na impunidade". O secretário-adjunto José Rodrigues realçou ainda que definição da agenda do trabalho decente, com a conclusão da conferência estadual, coincidirá com a revisão do Plano Plurianual (PPA) estadual de 2008 a 2011. Ou seja, as ações previstas já deverão contar com dotação orçamentária e com o apoio de deputados estaduais para que sejam aprovadas e executadas. A necessidade de fortalecer o papel do Estado é essencial nas discussões sobre trabalho decente, na perspectiva do secretário-geral da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Quitino Severo. "Éramos chamados de dinossauros quando defendíamos isso", ironizou. Mais uma vez, o sindicalista sustentou a tese de que a ajuda dos governos a determinados setores produtivos deve vir junto com a garantia de emprego.
Apesar dos sinais de evolução no diálogo acerca de princípios e ações relacionadas ao trabalho decente, a realidade nas áreas rurais permanece bastante conflituosa. Inácio Werner, do Centro Burnier Fé e Justiça, contou à Repórter Brasil que militantes de movimentos sociais, lideranças indígenas e defensores de direitos humanos que pregam o combate ao trabalho escravo estão sendo perseguidos e ameaçados nas audiências públicas sobre o Zoneamento Ecológico-Econômico (ZEE) estadual. Inácio criticou a ausência de proteção para pessoas como a liderança indígena Valmireide Zoromará, de 42 anos, do Povo Paresi, que foi assassinada a tiros na noite de 9 de janeiro deste ano enquanto pescava numa represa perto de Nova Marilândia (MT). Em defesa do território indígena, Valmireide foi personagem atuante na audiência sobre o ZEE realizada em Diamantino (MT).
Comentários: GILBERTO TOLEFO GARCIA DE ALMEIDA - 18/04/2009 - 18h08
ZAQUEU AGUIAR - 18/04/2009 - 08h22
MARIA LISBOA CAVALCANTI - 17/04/2009 - 19h00
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